sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ela




Ela que é do imaginário
O impossível,
Do sonho o devaneio
Do inatingível
O inalcançável,
E eu que sou da solidão
O ermo
Do vazio
O vácuo,
Ai de mim tal sentimento por ela despertar
Ai de mim tal delírio em meu ser alimentar

Ela que é do belo
A Perfeição
E eu que sou do erro
A perdição 



Lima de Vasconcelos


quinta-feira, 26 de abril de 2012

O túmulo

 
 
Se o amor que eu te dei
Um dia você o queira,
E se lembre desse poeta
Que sonhou e viveu
Na espera que um dia
O procurasse,
Talvez procure,
Mas a vida que não vive
O tanto de um grande amor
Um dia se acabará.
E depois com o tempo
Talvez me queira
E duvide de meu amor
E procure a verdade,
A tristeza e a solidão
De quem amou
E não foi correspondido
Responder-lhe-á
- Pergunte ao meu túmulo.


Lima de Vasconcelos

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Intimo




O amor não se explica
Não se descreve
Ou se compara
Apenas sentimos o seu fogo
Envolver-nos a alma.
Quando em um suspiro
Sentimos tremer a face de leve encanto
Que ao acaso podem nos confundir
Com os desejos devaneios da alma
Olhos cadentes, seios despidos
Imagens de corpos nus
Que ao engano nos leva ao prazer efêmero
Que se desfaz em uma noite
Deixando o ermo na sombra das paredes
Amar é sentir, desejar o eterno
Conhecer crimes, defender lutar
Pelo o que zelamos com a própria vida.
E ter sempre consigo o desejo
A busca o infindo, o sempre o eterno
E sentir seios roçar-nos o peito
Inesgotável fonte de êxtase
Que ao acaso concede e é concedido.

Lima de Vasconcelos

Mario Quintana




Mario Quintana

Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!


terça-feira, 24 de abril de 2012

Ausência



Vinícius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
 

MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA.

Dezembro




Hoje eu que nada penso
Escrevo pensando em ti
E esse vazio que alarga meu peito
Te amar é uma coisa assim
Te amar e não te ter perto de mim

E o fazer e o não fazer
É só uma redundância
Do realizar escravo,
Te amar é uma coisa assim
Simples como chamar teu nome
E complicado como te esquecer.


Lima de Vasconcelos

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Soneto de Fidelidade



Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

O Leilão




A vida é dura,
E o pão é duro para os dentes abstratos
Mas “eles” lhes darão próteses
Para morder os ossos do futuro.
A fome é grande
A corrupção é maior
E a necessidade apaga qualquer senso crítico.

O pão é duro
A vida é dura
E os olhos são cegos
Mas “eles” lhes darão óculos para verem o mundo
E não a realidade

A política é suja
O mundo uma ameaça
Mas a festa e a cachaça
          É toda de graça.
“eles” alimentam os vícios
E não alimentam a fome.
O feijão está caro
Mas a cerveja está em promoção,
E o voto senhores, está em pauta no leilão.


Lima de Vasconcelos