quinta-feira, 28 de junho de 2012

Torrentes lembranças


Era o mês de maio de uma tarde qualquer de um dia de marasmo, as nuvens volviam-se sobre a terra compostas por uma tonalidade vermelha transcendendo para um tom amarelo em contraste com um cinza cálido, as nuvens anunciavam que ia chover, mas, não diziam quando, o tempo estava disperso dentro de uma moldura estática que transcendia ao final da tarde. 
Envolvido pelas linhas que compunham a paisagem, deixei-me levar por um estado de cogitação, o qual condicionou minhas pernas a uma fuga involuntárias, pelas ruas de minhas lembranças, caminhei pela avenida de minha eterna infância, me vi criança, pequeno rebento a correr e brincar o contentamento, e como que cada posso dado fosse uma viagem no tempo seguir pelas emoções adentro, lembrei-me dos meus antigos sonhos que as forças tempestuosas da vida me fizeram abandonar, lembrei das coisas hoje tão pequenas que me fizeram chorar, dos momentos tristes, do meu momento de dor, das marcas de um passado que em mim ficou, de repente, no meio da caminhada, minhas pernas me levaram ao encontro de um eu ausente, quem era aquele garoto que brincava e sorria? Sua face sumia entre velhas lembranças já turvas pelo tempo, e aparecia em meu rosto refletido no espelho da vida, no reflexo não havia mais aquele sorriso, nem aquele olhar, é como que alguma coisa, lhe fizesse sofrer. Sem muito entender esse momento de minha caminhada seguir adiante, novamente me encontrei, dessa vez, mais desconfortante, me vi amando e fazendo versos para um fracassado amor, as palavras eram belas, mas o dia era feio, as flores estavam murchas e as pessoas tinham um sentimento egoísta e singular em seus rostos, que diziam: “- Ama o podre, ele está na moda, e está na moda é belo, queima a última árvore, novas casas nascem do chão, pra que Deus, se nós já amamos a corrupção”, muito triste e decepcionado com meus semelhantes seguir novamente minha caminhada, dessa vez quis fazer uma maior jornada, quem sabe rever alguma pessoa amada, de repente fui acordado por um barulho que soou como uma chibata, acordei eram 3:30 da manhã, tomei um café que eu mesmo preparei, li alguns versos de Drummond, olhei para minha cama, fiel companheira, e voltei a dormir entorno das névoas de minhas lembranças que saiam de meus ouvidos, como torrentes chuvas de maio.



Lima de Vasconcelos


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Acéfalomania


Quadro gigante acefalo Max Ernest


A rua está cheia de notícias
É preciso lê-las, é preciso ouvi-las.

As roupas estão cheias de mensagens
É preciso obedecê-las é preciso segui-las.

A moda está cheia de tendências
É preciso abandonar a mim mesmo
É preciso abandonar meu orgulho,
E render-me ao aniquilamento por completo
Pois, é preciso segui-la.

As músicas estão cheias de frases desconexas
É preciso ouvi-las, é preciso cantá-las.

É preciso!

É preciso!

Eu preciso, preciso bem mais que preciso sim
Pois preciso! E preciso
Não ser dono de mim.

Lima de Vasconcelos

terça-feira, 5 de junho de 2012

Sobre o silêncio de uma noite




O que foi dito em um instante,
Tornou-se, em mim erro constante;
Palavras essas facas em que conjugamos verbos soltos,
Voltados para um pensamento incógnito.

Não! Não desejo que te afastes de mim,
Quero tê-la sempre em um eterno abraço,
Que silencia até mesmo o silêncio.
Não, não foram as palavras proferidas:
Verbos malucos com sádicas preposições
Que lhe feriram aos ouvidos,
Foi parte de mim,
Parte de um eu distante,
Ausente e inconstante,
Que se reprime no verbo desse dia
E nos poucos adjetivos de minhas ações.


Lima de Vasconcelos