quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cismar

Desenho Lima de Vasconcelos

Fala-me, anjo de luz! és glorioso
À minha vista na janela à noite,
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos froixos olhos
Do homem que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens
Ou navega no seio do ar da noite.
Romeu Ai! Quando de noite, sozinha à janela,
Co'a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!
Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?
Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?
Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves?
No céu A brisa gemeu...
As vagas murmuram...
As folhas sussurram: Amar!

Álvares de Azevedo

terça-feira, 15 de maio de 2012

Poema da Meia Noite





Distante dos carros, no silencio do seu quarto
O poeta trabalha a sua poesia
Rabiscando frase por frase
Estrofe por estrofe
Até chegar a forma mágica, o poema
Frio como a morte
Quente como o fogo
E triste como o poeta.
Tu poeta que rabisca declarações
Que sonha com o mundo,
Que tem os olhos úmidos em lágrimas.
Tu poeta que já sente o coração
Bater cansado em seu peito
Que já ouve os sinos
Dobrarem o teu corpo.                                                                                                                                                                                                                                                                         

Lima de Vasconcelos

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Patamar



Sinto a morte em meus passos
Presa aos grilhões
Que fere o sangue negro da África.
De onde se alteia a nação de orgulhos falsos,
Rabiscam-se hinos de derrotas vitoriosas
Cantados por vozes fracas e tuberculosas.

A nação que se ergue sobre cadáveres
A democracia em papel
O canto de morte das favelas
A fome os roubos a morte o mal.

Brasil, pátria amada
Salve! Salve! Quem puder.

Lima de Vasconcelos

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Distância


Para minha amiga Toinha Gomes


Envelheçam-se os segundos
Dentro de longos minutos distante de ti
Passem as horas, dias milenares.

Que o passado faça-se mais distante
E o futuro mais próximo.
Que as lembranças façam-se mais velhas
E não esquecidas
Que a nossa vida continue sempre florida
Seja ela amada, lembrada e apetecida.

E faça-se o amor mais jovem,
Sempre e eternamente
Amado, lembrado e desejado.

Lima de Vasconcelos

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Poema sem resposta




Outra vez ruge fe-roz-men-te
Esse grito inalcançável e iná-tin-gí-vel
Ao qual chamamos de amor.
Antes o sentira, mais não com essa força,
e com essa sede de querer.
Nunca mais ouvira gritos tão pungentes,
Nem sentido essa dor
Essa ansiedade
E esse sofrer
Que só insiste em te querer.

Lima de Vasconcelos

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Soneto Do Amor Total




Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes